Bate e volta em Parintins
“Logo que acordei, fiquei admirado com a imensidão do rio Amazonas”
Por Plínio Ribeiro*
10/7/2006
Qual o verdadeiro poder das tradições regionais? O que são elas em comparação, nada por acaso, a uma Copa do Mundo? E quem já ouviu falar de bunda a bordo ou de bumba meu boi?
Saímos, Daniel Fleming e eu, do porto de Manaus, ou “da escadaria”, às 16h30. Nosso destino? Parintins, na ilha de Tupinambarana, distante 420 km por via fluvial. Objetivo: conhecer, sentir e pegar no maior Festival Folclórico do Brasil! Era uma sexta-feira e na segundona tinha que estar de volta.
“Imagine que o carnaval do Rio é um filme. Então, Parintins é uma peça de teatro”, disse Simão Assaig, do Caprichoso, pra uma reportagem do Caderno de Turismo da Folha de S. Paulo em 13 de julho de 1995.
Ainda em Manaus, quando já havíamos “escolhido” o barco que nos levaria rio Amazonas a baixo, demos um pulo rápido no Mercado Municipal para garantir nossa alimentação pra viagem que prometia durar cerca de 15 horas. Compramos a passagem pro Ana Maria IV, mas embarcamos no São Bartolomeu I. Esse barquelão tem capacidade para 105 pessoas (51 no convés principal e 54 no convés superior). A Argentina ainda chorava a desclassificação, por pênaltis, quando finalmente zarpamos.
Menos de meia hora, e o primeiro atraso acontece. Queriam, e depois conseguiram, descarregar um caminhão daqueles cilindros grandes de oxigênio no nosso barco. Mais precisamente 130 cilindros. Quando as pessoas do andar de cima perceberam a intenção, a discussão começou:
- Tem criança, mulher e família. E é muito peso pra essa embarcação.
Lá em baixo respondiam:
- Não é tanto peso assim, além do mais aqui está a nota da mercadoria.
De repente, quase todos os passageiros participavam da infundada discussão, a tal ponto, que o capitão teve que intervir e ordenar que todos fossem pro meio do barco pra que não tombasse pro lado. Em meio ao “auê”, alguém teve a idéia de ligar pra capitania dos portos, que não tardou a chegar. O pior é que era uma conta simples, multiplicavam-se os 130 cilindros por uns 70kg que dá umas nove toneladas. Pouco peso pro nosso barco que, ainda por cima, tinha o porão totalmente vazio. Fato esse, que ninguém se deu ao trabalho de verificar. É sempre mais fácil discutir! Bom, até aí, já haviam passado outras duas horas.
Mais pra frente, tudo o que a capitania fez foi mandar todo mundo descer pra uma contagem geral. E outra vez mais atraso. “Isso é Amazônia”, pensava numa tentativa de consolo. Já era escuro e ainda era possível ver as luzes de Manaus quando Paulo, o capitão, fez uma curva meio sem sentido e encostou o São Bartolomeu I numa outra embarcação, muito maior, que ia “de bubuia” rio abaixo. Era o Espírito Santo, não o divino, mas um outro barquelão que ia lotado e, agora, quebrado pra Parintins. Desisti de querer saber ou entender o que estava acontecendo, mas, já na rede, tive a impressão de que amarravam um ao outro.
No dia seguinte, sábado, logo que acordei, fiquei admirado com a imensidão do rio Amazonas. Agora, ainda mais intrigante foi ver que continuávamos rebocando o Espírito Santo rio abaixo e essa situação continuaria até o nosso destino. Resolvemos conhecê-lo e, pra nossa surpresa, ele tinha um grande terraço, de onde, àquela hora da manhã, já se ouvia um forró-brega nas alturas.
Subindo as escadinhas pro terraço, você começa a ver as coisas em partes, como num filme em câmera lenta. A cada degrau, a realidade ia se mostrando quase nua e, senão crua, assada. No primeiro degrau, o capô de uma bunda mulata. Dois degraus depois, já são duas bundas em "fio dentais" minúsculos (desculpe-me o pleonasmo). No penúltimo degrau são dois corpos, cobertos de óleo, debaixo de um sol desgraçado de quente e um bando de homens ao redor, ouvindo brega e tomando uma cerveja gelada. É claro que também se via o rio todo por inteiro e o verde da floresta quase no mesmo nível. Esse era o espírito no Espírito Santo.
(CONTINUA...)
*Plínio Ribeiro é Administrador de Empresas, diretor do Projeto tripé na Amazônia e colaborador da Revista Neurônio
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